O Grito da Independência... com Dor de Barriga
A História que Não Contavam na Escola
CURIOSIDADES HISTÓRICAS
Warlisson Martins
7/12/20263 min read


O Grito da Independência... com Dor de Barriga
Quando pensamos na Independência do Brasil, praticamente todos imaginamos a mesma cena.
Dom Pedro I montado em um imponente cavalo branco, espada erguida para o céu, soldados impecavelmente alinhados ao seu redor e o famoso grito ecoando às margens do Rio Ipiranga:
"Independência ou Morte!"
Essa imagem ficou gravada na memória dos brasileiros graças aos livros escolares e ao famoso quadro de Pedro Américo.
Só existe um pequeno detalhe.
Ela está muito longe da realidade.
O verdadeiro Dom Pedro I daquele 7 de setembro de 1822 provavelmente estava mais preocupado com uma forte dor de barriga do que em posar como um herói renascentista.
E, curiosamente, isso torna a história ainda mais interessante.
Uma viagem cansativa rumo a São Paulo
Naquele início de setembro, Dom Pedro estava viajando pela província de São Paulo em meio a uma enorme crise política entre Brasil e Portugal.
As Cortes portuguesas exigiam seu retorno imediato para Lisboa, enquanto crescia o movimento favorável à separação definitiva.
Durante a viagem entre Santos e São Paulo, a subida da Serra do Mar era extremamente difícil.
As estradas eram estreitas, enlameadas e cheias de obstáculos.
O percurso já seria cansativo em condições normais.
Mas havia um problema ainda maior.
Dom Pedro estava doente.
O verdadeiro perrengue do futuro imperador
Diversos relatos históricos apontam que Dom Pedro sofria de uma forte infecção intestinal, provavelmente uma disenteria provocada por água ou alimentos contaminados durante a viagem.
Hoje isso já seria bastante desagradável.
Imagine enfrentar esse problema em uma longa travessia pela serra, sem banheiros, sem medicamentos modernos e cercado por uma comitiva inteira.
Segundo os relatos da época, o grupo precisou fazer várias paradas de emergência porque o príncipe simplesmente não conseguia continuar cavalgando por muito tempo.
Aliás...
Nem cavalo branco havia.
Dom Pedro seguia montado em uma mula de carga, muito mais adequada para enfrentar o terreno difícil da Serra do Mar.
Nada daquela imagem heroica que ficou famosa décadas depois.
Foi justamente durante uma dessas interrupções que chegaram novas correspondências vindas do Rio de Janeiro.
As cartas confirmavam que Portugal endurecia ainda mais sua posição e limitava os poderes do príncipe.
A decisão precisava ser tomada imediatamente.
Mesmo debilitado, cansado e claramente longe do seu melhor estado físico, Dom Pedro tomou uma das decisões mais importantes da história brasileira.
Ali, às margens do riacho do Ipiranga, veio a declaração que marcaria o nascimento político do Brasil independente.
O quadro que virou verdade na nossa cabeça
Grande parte da confusão entre mito e realidade nasceu por causa de uma obra de arte.
Em 1888, mais de seis décadas depois da Independência, o pintor Pedro Américo produziu o famoso quadro Independência ou Morte.
A pintura nunca teve a intenção de funcionar como uma fotografia do acontecimento.
Ela foi criada para representar um símbolo nacional.
Por isso aparecem cavalos elegantes, soldados organizados, uma composição grandiosa e um Dom Pedro quase épico, inspirado em pinturas históricas europeias.
Era uma forma de construir uma identidade para um país relativamente jovem.
Na prática, porém, o cenário provavelmente era muito mais simples.
Uma estrada de terra.
Poucas pessoas.
Animais de carga.
Muito calor.
Muito cansaço.
E um príncipe enfrentando uma infecção intestinal bastante séria.
A realidade torna a história ainda melhor
Durante muito tempo, essas curiosidades foram tratadas quase como piadas.
Mas elas ajudam a lembrar algo importante.
Os grandes personagens da história eram seres humanos.
Sentiam medo.
Erravam.
Adoeciam.
Passavam por situações constrangedoras como qualquer pessoa.
Saber que Dom Pedro I proclamou a Independência enquanto enfrentava uma forte disenteria não diminui a importância daquele momento.
Na verdade, faz exatamente o contrário.
Mostra que decisões capazes de mudar o destino de uma nação nem sempre acontecem em cenários perfeitos, com heróis impecáveis e trilhas sonoras épicas.
Às vezes, elas acontecem no meio da poeira, do calor, de uma estrada ruim e, por que não, durante uma inesperada dor de barriga.
Talvez seja justamente isso que torne a História tão fascinante.
Ela quase nunca acontece como aparece nos quadros.
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